quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

QUEM SABE UM DIA, de Mário Quintana

Quem
sabe um dia
Quem sabe um seremos
Quem sabe um viveremos
Quem sabe um morreremos!

Quem é que
Quem é macho
Quem é fêmea
Quem é humano, apenas!

Sabe amar
Sabe de mim e de si
Sabe de nós
Sabe ser um!

Um dia
Um mês
Um ano
Um(a) vida!

Sentir primeiro, pensar depois
Perdoar primeiro, julgar depois

Amar primeiro, educar depois
Esquecer primeiro, aprender depois

Libertar primeiro, ensinar depois
Alimentar primeiro, cantar depois

Possuir primeiro, contemplar depois
Agir primeiro, julgar depois

Navegar primeiro, aportar depois
Viver primeiro, morrer depois

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

OS TEUS PÉS, de Pablo Neruda

Quando não posso contemplar teu rosto,
contemplo os teus pés.

Teus pés de osso arqueado,
teus pequenos pés duros.

Eu sei que te sustentam
e que teu doce peso
sobre eles se ergue.

Tua cintura e teus seios,
a duplicada púrpura
dos teus mamilos,
a caixa dos teus olhos
que há pouo levantaram voo,
a larga boca de fruta,
tua rubra cabeleira,
pequena torre minha.

Mas se amo os teus pés
é só porque andaram
sobre a terra e sobre
o vento e sobre a água,
até me encontrarem.

sábado, 26 de dezembro de 2015

TER OU NÃO TER NAMORADO, EIS A QUESTÃO, por Artur da Távola

Quem não tem namorado é alguém que tirou férias não remunerada de si mesmo. Namorado é a mais difícil das conquistas. Difícil porque namorado de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia. Paquera, gabiru, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão, é fácil. Mas namorado, mesmo, é muito difícil.

Namorado não precisa ser o mais bonito, mas ser aquele a quem se quer proteger e quando se chega do lado dele a gente treme, sua frio e quase desmaia pedindo proteção. A proteção não precisa ser parruda, decidida ou bandoleira: basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição.

Quem não tem namorado é quem não tem amor, é quem não sabe o gosto de namorar. Há quem não sabe o gosto de namorar... Se você tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento e dois amantes, mesmo assim pode não ter nenhum namorado. Não tem namorado quem não sabe o gosto da chuva, cinema sessão das duas, medo do pai, sanduíche de padaria ou drible no trabalho. Não tem namorado quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de virar sorvete ou lagartixa, é quem ama sem alegria. Não tem namorado quem faz pacto de amor apenas com a infelicidade. Namorar é fazer pactos com a felicidade ainda que rápida, escondida, fugida ou impossível de durar. Não tem namorado quem não sabe o valor de mãos dadas, de carinho escondido na hora em que passa o filme, de flor catada no muro e entregue de repente, de poesia de Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes ou Chico Buarque lida bem devagar, de gargalhada quando fala junto ou descobre a meia rasgada, de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo alado, tapete mágico ou foguete interplanetário.

Não tem namorado quem não gosta de dormir agarrado, de fazer cesta abraçado, fazer compra junto. Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor, nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele, abobalhados de alegria pela lucidez do amor. Não tem namorado quem não redescobre a criança própria e a do amado e sai pelos parques, fliperamas, beira d’água, show do Milton Nascimento, bosques enluarados, ruas de sonhos ou musical da Metro. Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, quem não dedica livros, quem não recorta artigos, quem gosta sem curtir, quem curte sem aprofundar. Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada, ou meio-dia do dia de sol em plena praia cheia de rivais. Não tem namorado quem ama sem se dedicar, quem namora sem brincar, quem vive cheio de obrigações; quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele. Não tem namorado quem confunde solidão com ficar sozinho e em paz. Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo. 

Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando duzentos quilos de grilos e medos, ponha a saia mais leve, aquela de chita e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim. Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela. Ponha intenções de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteria.

Se você não tem namorado é porque ainda não enlouqueceu aquele pouquinho necessário a fazer a vida, para de repente parecer que faz sentido. ENLOU-CRESÇA.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

FANATISMO, de Florbela Espanca

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver !
Não és sequer a razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida !

Não vejo nada assim enlouquecida ...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida !

"Tudo no mundo é frágil, tudo passa ..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim !

E, olhos postos em ti, digo de rastros :
"Ah ! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus : Princípio e Fim ! ..."

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

TU TENS UM MEDO, de Cecília Meireles

Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

A SERPENTE QUE DANÇA, de Charles Baudelaire

Em teu corpo, lânguida amante,
Me apraz contemplar,
Como um tecido vacilante,
A pele a faiscar.

Em tua fluida cabeleira
De ácidos perfumes,
Onde olorosa e aventureira
De azulados gumes,

Como um navio que amanhece
Mal desponta o vento,
Minha alma em sonho se oferece
Rumo ao firmamento

Teus olhos que jamais traduzem
Rancor ou doçura,
São jóias frias onde luzem
O ouro e a gema impura.

Ao ver-te a cadência indolente,
Bela de exaustão,
Dir-se-á que dança uma serpente
No alto de um bastão.

Ébria de preguiça infinita,
A fronte de infanta
Se inclina vagarosa e imita
A de uma elefanta.

E teu corpo pende e se aguça
Como escuna esguia,
Que às praias toca e se debruça
Sobre a espuma fria.

Qual uma inflada vaga oriunda
Dos gelos frementes,
Quando a água em tua boca inunda
A arcada dos dentes

Bebo de um vinho que me infunde
Amargura e calma,
Um líquido céu que se difunde
Astros em minha alma!

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

CUERPO DE MUJER, de Pablo Neruda

Cuerpo de mujer, blancas colinas, muslos blancos,
te pareces al mundo en tu actitud de entrega.
Mi cuerpo de labriego salvaje te socava
y hace saltar el hijo del fondo de la tierra.

Fui solo como un túnel. De mí huían los pájaros
y en mí la noche entraba su invasión poderosa.
Para sobrevivirme te forjé como un arma,
como una flecha en mi arco, como una piedra en mi honda.

Pero cae la hora de la venganza, y te amo.
Cuerpo de piel, de musgo, de leche ávida y firme.
¡Ah los vasos del pecho! ¡Ah los ojos de ausencia!
¡Ah las rosas del pubis! ¡Ah tu voz lenta y triste!

Cuerpo de mujer mía, persistiré en tu gracia.
Mi sed, mi ansia si límite, mi camino indeciso!
Oscuros cauces donde la sed eterna sigue,
y la fatiga sigue, y el dolor infinito.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Tradução da música PHOTOGRAPH, de Ed Sheeran



Amar pode doer
Amar pode doer às vezes
Mas é a única coisa que eu sei
Quando fica difícil
Você sabe que pode ficar difícil às vezes
É a única coisa que nos mantém vivos


Nós mantemos este amor numa fotografia
Nós fizemos estas memórias para nós mesmos
Onde nossos olhos nunca fecham
Nossos corações nunca estiveram partidos
E o tempo está congelado para sempre


Então você pode me guardar no bolso
Do seu jeans rasgado
Me abraçando perto até nossos olhos se encontrarem
Você nunca estará sozinha
Espere por minha volta para casa


Amar pode curar
Amar pode remendar sua alma
E é a única coisa que eu sei
Eu juro que fica mais fácil
Lembre-se disso em cada pedaço seu
E é a única coisa que levamos conosco quando morremos


Nós mantemos este amor numa fotografia
Nós fizemos estas memórias para nós mesmos
Onde nossos olhos nunca fecham
Nossos corações nunca estiveram partidos
E o tempo está congelado para sempre


Então você pode me guardar no bolso
Do seu jeans rasgado
Me abraçando perto até nossos olhos se encontrarem
Você nunca estará sozinha
E se você me machucar, tudo bem querida
Apenas as palavras sangram
Dentro destas páginas, apenas me abrace
E eu nunca te deixarei ir
Espere por minha volta para casa


E você poderia me colocar
Dentro deste colar que você usou
Quando tinha 16 anos
Perto do seu coração onde deveria estar
Mantenha isso no fundo de sua alma


E se você me machucar
Mas está tudo bem, querida
Apenas as palavras sangram
Dentro destas páginas, apenas me abrace
E eu nunca te deixarei ir


Quando eu estiver longe
Me lembrarei de como você me beijava
Embaixo do poste de luz da 6ª rua
Ouvindo você sussurrar pelo telefone
Espere por minha volta para casa

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

NA VARANDA, por Douglas Cordare

Hoje eu fui beber no meu bar favorito. As coisas não mudaram muito por lá, mas eles trocaram aqueles pôsteres antigos que ficavam na parede, lembra? Ah, a cerveja aumentou também, mas tudo bem, ainda vale a pena. Ir pra lá me transporta de volta pra aquele dia.


Lembro que eu troquei de roupas três vezes antes de escolher qual eu ia usar. Escolhi aquela camisa do Death Cab sem saber que era uma banda que te fazia lembrar de mim. Depois desse dia eu passei a chamá-la de “minha camisa da sorte”. Fui, mas tive que voltar, porque tinha esquecido o presente em casa. O aniversário não era seu, mas nossa amiga merecia, afinal de contas ela me apresentou você.

Lembro que quando cheguei ao bar tive alguma dificuldade pra achar a mesa, tinha muita gente. Mas no meio de toda aquela confusão eu vi você, e parece que todos os músculos do meu rosto se contorceram num “uau!” imaginário. Foi só te olhar pra perceber que ali, de frente pra mesa 29, era o meu lugar certo pra estar.

Você perguntou o que eu tinha achado do seu cabelo novo agora que tinha visto ao vivo sem saber que eu literalmente caí da cadeira quando você tinha me mandado uma foto mais cedo. Precisei de uns segundos pra conseguir desviar os olhos e formular uma resposta. Pensa, cara, pensa! Ela não pode te deixar sem resposta pra tudo, ela não pode te fazer fugir de si. Respondi e você sorriu aquele seu sorriso. Meu sorriso favorito até hoje. Olha, eu não sei bem se tem um momento exato pra essas coisas mas se tiver foi ali, naquele sorriso, quando eu soube que estava oficialmente apaixonado por você.

A aniversariante teve que me cobrar os parabéns que eu tinha esquecido de dar e fui com ela. O plano era ficar um pouco lá, afinal era pra isso que estávamos lá, certo? Menos de seis voltas do ponteiro maior depois eu já estava de novo voltando pra sua mesa e me atrapalhando com essa minha mania de falar demais quando fico nervoso ou perto de uma garota bonita. Quando acontece as duas coisas juntas fica pior. Você achou graça de alguma coisa que eu disse me pediu pra eu segurar a sua bolsa enquanto você ia ao banheiro.

Pedi um pouco de coragem pro bartender, mas ele só tinha cerveja. E eu sei que a varanda de um bar de Ipanema não é o lugar mais romântico do mundo, mas foi o único lugar que eu achei pra te tirar da multidão e ganhar um pouco de privacidade. Foi aqui, nessa mesma varanda de onde eu tô te escrevendo agora, que você resolveu dar uma chance pra aquele cara todo nervoso e sem jeito ali tentando falar o quanto gostava demais de você.

Foi aqui, exatamente aqui o nosso primeiro beijo. Foi nos seus lábios que eu encontrei o que eu não sabia que estava procurando esse tempo todo. Menina, bastou eu estar ali uma vez, pra eu ter certeza que era ali que eu queria estar o resto da minha vida. Meus lábios tem o molde dos seus e agora parece difícil me encaixar em outros.

Essa varanda é estranha sem você, tem muito espaço aqui, parece até que eles reformaram. Talvez tenham, mas fora isso e os cartazes, o bar não mudou muito, ele ainda anda cheio, com amigos, música, os jogos e as bebidas. Tudo funciona bem, e apesar de ter poucas diferenças visíveis ainda falta a animação que tinha por aqui, falta um pouco da atmosfera mágica que inundava o lugar. Daqui, do alto da varanda, eu percebo que falta um pedaço.

Falta você.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

CUIDE BEM DO SEU AMOR, por Pedro Bial




Trate seu amor como você trata seu melhor amigo.

Sei que isso parece falta de romantismo, mas é o conselho mais certeiro. Não era você que estava a fim de uma relação serena e plenamente satisfatória? Está aí o caminho. Vamos tentar elucidar como isso se dá na prática.

Você foi convidado para o casamento de uma prima distante que mora onde Judas perdeu as botas. Você tem que ir porque ela chamou você pra padrinho. Como é que os casais costumam combinar isso? “Não tem como escapar, você vai comigo e pronto”. Ou seja, um põe o outro no programa de índio e nem quer saber de conversa.

É assim que você convidaria seu melhor amigo? Não. Você diria: “Putz, tenho uma roubada pela frente que você não imagina. Me dá uma força; vem
comigo, ao menos a gente dá umas risadas…”. Ficou bem mais simpático, não ficou?

Como esta, tem milhões de situações chatas que você pode aliviar, apenas moderando o tom das palavras.

Pro seu marido: “Você nunca repara em mim, não deu pra notar que cortei o cabelo? Será que sou invisível?” Mas pra sua melhor amiga: “Ai, pelo visto meu cabelo ficou medonho e você está me poupando, né? Pode dizer a verdade, eu agüento”.

Pra sua mulher: “Você já se deu conta da podridão que está este sofá? Não dá pra ver que está na hora de trocar o tecido?” Mas pra sua melhor amiga: “Deixa a pizza por minha conta, eu pago. Assim você economiza pra lavar o sofá. A não ser que este seja um novo estilo de decoração…” Risos, risos e mais risos.

Manere. Trate seu amor como todas as pessoas que você adora e que não são seus parentes. Trate com o mesmo humor que você trata seu melhor amigo, sua melhor amiga. Até porque, caso você não tenha percebido, é exatamente isso que seu amor é.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

GOZO SONHADO, de Ricardo Reis (heterônimo de Fernando Pessoa)

Gozo sonhado é gozo, ainda que em sonho.
Nós o que nos supomos nos fazemos,
Se com atenta mente resistirmos em crer
Não, pois, meu modo de pensar nas coisas,
Nos seres e no fado me consumo.
Para mim ê-lo. Crio tanto
Quanto para mim crio.
Fora de mim, alheio ao em que penso,
O Fado cumpre-se.
Porém eu me cumpro
Segundo o âmbito breve
Do que de meu me é dado.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

ESCREVE=ME ..., de Florbela Espanca

Escreve-me! Ainda que seja só
Uma palavra, uma palavra apenas,
Suave como o teu nome e casta
Como um perfume casto d'açucenas!


Escreve-me! Há tanto, há tanto tempo
Que te não vejo, amor! Meu coração
Morreu já, e no mundo aos pobres mortos
Ninguém nega uma frase d'oração!


"Amo-te! "Cinco letras pequeninas,
Folhas leves e tenras de boninas,
Um poema d'amor e felicidade!


Não queres mandar-me esta palavra apenas?
Olha, manda então...brandas...serenas...
Cinco pétalas roxas de saudade...


quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

UMA VIDA INTERESSANTE, por Martha Medeiros

“E, se eu lhe disser que estou com medo de ser feliz pra sempre?” pergunta ao seu analista a personagem Mercedes, da peça Divã, que estréia hoje em Porto Alegre.


É uma pergunta que vem ao encontro do que se debateu dias atrás num programa de tevê. O psicanalista Contardo Calligaris comentou que ser feliz não é tão importante, que mais vale uma vida interessante. Como algumas pessoas demonstraram certo desconforto com essa citação, acho que vale um mergulhinho no assunto.

“Ser feliz”, no contexto em que foi exposto, significa o cumprimento das metas tradicionais: ter um bom emprego, ganhar algum dinheiro, ser casado e ter filhos.

Isso traz felicidade? Claro que traz. Saber que “chegamos lá” sempre é uma fonte de tranqüilidade e segurança. Conseguimos nos enquadrar, como era o esperado. A vida tal qual manda o figurino. Um delicioso feijão-com-arroz.

E o que se faz com nossas outras ambições?

Não por acaso a biografia de Danuza Leão estourou. Ali estava a história de uma mulher que não correu atrás de uma vida feliz, mas de uma vida intensa, com todos os preços a pagar por ela. A maioria das pessoas lê esse tipo de relato como se fosse ficção. Era uma vez uma mulher charmosa que foi modelo internacional, casou com jornalistas respeitados, era amiga de intelectuais, vivia na noite carioca e, por tudo isso, deu a sorte de viver uma vida interessante. Deu sorte?

Alguma, mas nada teria acontecido se ela não tivesse tido peito. E ela sempre teve. Ao menos, metaforicamente.

Pessoas com vidas interessantes não têm fricote. Elas trocam de cidade. Investem em projetos sem garantia. Interessam-se por gente que é o oposto delas. Pedem demissão sem ter outro emprego em vista. Aceitam um convite para fazer o que nunca fizeram. Estão dispostas a mudar de cor preferida, de prato predileto. Começam do zero inúmeras vezes. Não se assustam com a passagem do tempo. Sobem no palco, tosam o cabelo, fazem loucuras por amor, compram passagens só de ida.

Para os rotuladores de plantão, um bando de inconseqüentes. Ou artistas, o que dá no mesmo. Ter uma vida interessante não é prerrogativa de uma classe. É acessível a médicos, donas de casa, operadores de telemarketing, professoras, fiscais da Receita, ascensoristas.

Gente que assimilou bem as regras do jogo (trabalhar, casar, ter filhos, morrer e ir pró céu), mas que, a exemplo de Groucho Marx, desconfia dos clubes que lhe aceitam como sócia. Qual é a relevância do que nos é perguntado numa ficha de inscrição, num cadastro para avaliar quem somos? Nome, endereço, estado civil, RG, CPF. Aprovado.

Bem-vindo ao mundo feliz.

Uma vida interessante é menos burocrática, mas exige muito mais.

(extraído do livro Doidas e Santas.)

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

O HOMEM E A MULHER, de Victor Hugo

O homem é a mais elevada das criaturas.
A mulher é o mais sublime dos ideais.
Deus fez para o homem um trono;
Para a mulher um altar.

O trono exalta; o altar santifica.
O homem é o cérebro; a mulher o coração, o amor.
A luz fecunda; o amor ressuscita.
O homem é o gênio; a mulher o anjo.

O gênio é imensurável; o anjo indefinível.
A aspiração do homem é a suprema glória;
A aspiração da mulher, a virtude extrema.
A glória traduz grandeza; a virtude traduz divindade.

O homem tem a supremacia; a mulher a preferência.
A supremacia representa força.
A preferência representa o direito.
O homem é forte pela razão; a mulher invencível pelas lágrimas.

A razão convence; a lágrima comove.
O homem é capaz de todos os heroísmos;
A mulher de todos os martírios.
O heroísmo enobrece; os martírios sublima.

O homem é o código; a mulher o evangelho.
O código corrige; o evangelho aperfeiçoa.
O homem é o templo; a mulher, um sacrário.
Ante o templo, nos descobrimos;

Ante o sacrário ajoelhamo-nos.
O homem pensa; a mulher sonha.
Pensar é ter cérebro;
Sonhar é ter na fronte uma auréola.

O homem é um oceano; a mulher um lago.
O oceano tem a pérola que embeleza;
O lago tem a poesia que deslumbra.
O homem é a águia que voa; a mulher o rouxinol que canta.

Voar é dominar o espaço; cantar é conquistar a alma.
O homem tem um fanal; a consciência;
A mulher tem uma estrela: a esperança.
O fanal guia, a esperança salva.

Enfim...
O homem está colocado onde termina a terra;
A mulher onde começa o céu...

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

ADEUS, MEUS SONHOS!, de Manuel Antônio Álvares de Azevedo

Adeus, meus sonhos, eu pranteio e morro!
Não levo da existência uma saudade!
E tanta vida que meu peito enchia
Morreu na minha triste mocidade!

Misérrimo! Votei meus pobres dias
À sina doida de um amor sem fruto,
E minh'alma na treva agora dorme
Como um olhar que a morte envolve em luto.

Que me resta, meu Deus? Morra comigo
A estrela de meus cândidos amores,
Já não vejo no meu peito morto
Um punhado sequer de murchas flores!


quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

NÃO COMEREI DA ALFACE A VERDE PÉTALA, de Vinícius de Moraes

Não comerei da alface a verde pétala
Nem da cenoura as hóstias desbotadas
Deixarei as pastagens às manadas
E a quem maior aprouver fazer dieta.


Cajus hei de chupar, mangas-espadas
Talvez pouco elegantes para um poeta
Mas peras e maçãs, deixo-as ao esteta
Que acredita no cromo das saladas.


Não nasci ruminante como os bois
Nem como os coelhos, roedor; nasci
Omnívoro: deem-me feijão com arroz


E um bife, e um queijo forte, e parati
E eu morrerei feliz, do coração
De ter vivido sem comer em vão.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

AO LUAR, de Augusto dos Anjos

Quando, à noite, o Infinito se levanta
A luz do luar, pelos caminhos quedos
Minha táctil intensidade é tanta
Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos!

Quebro a custódia dos sentidos tredos
E a minha mão, dona, por fim, de quanta
Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos,
Todas as coisas íntimas suplanta!

Penetro, agarro, ausculto, apreendo, invado,
Nos paroxismos da hiperestesia,
O Infinitésimo e o Indeterminado…

Transponho ousadamente o átomo rude
E, transmudado em rutilância fria,
Encho o Espaço com a minha plenitude!

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

ANINHA E SUAS PEDRAS, de Cora Coralina

Não te deixes destruir…
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.

Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.

Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.

Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.


(retirado do livro Melhores Poemas; seleção e apresentação Darcy França Denófrio. São Paulo: Global, 3a edição, 2008. 4a reimpressão, 2011. p. 243)

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

NAMORE UMA MULHER LIVRE, por Hudson Baroni

Se tivesse que dar só um conselho seria esse: namore uma mulher livre.
Por quê? Eu explico.

Quando digo livre quero dizer literalmente sem amarras.
Sem algo que a prenda, ou seja, sem medo de viver.

Uma mulher livre tem personalidade.
Ela tem seus próprios gostos, seus sonhos, não se pauta pelos outros.
Tem opinião própria, sabe pensar por si só.
É independente, e sabe dar espaço e quer ter o seu próprio.

Vejo mulher livre como aquela mulher que sente que pode fazer o que quiser, porque pode.
Que não é fresca, é disposta a qualquer coisa.
Que sabe se cuidar e não precisa de você, mas que quer ser cuidada mesmo assim e vai cuidar de você de volta.

Porque uma mulher livre é uma mulher que tira o melhor da vida.
E isso contagia.

Namore essa mulher que você pode igualmente admirar e criticar.
Que você possa beber um café de manhã e uma cerveja de noite.
Que você possa mostrar um vídeo bobo ou um artigo inteligente.
Alguém que seja tão livre que te deixa livre também para você ser você mesmo.

Mulheres livres chamam a atenção.
São inevitáveis como um relâmpago: você não resiste olhar para o clarão.
E não é a aparência, não é só a aparência.
É uma aura diferente. Transparece no sorriso.
E te convence na primeira troca de palavras.
A gente não sabe explicar mas percebe quando encontra uma.
Mulheres livres são inevitáveis.

E por mais que você tente resistir: se ela quiser, ela tem.
Parece que as coisas sempre se alinham para dar certo pra ela, no final das contas.

Ela é um dos dois: ou ela vai te conquistar ou te intimidar.
Principalmente se você for do tipo que gosta de manter uma mulher submissa ou sob sua sombra.

Se você tentar sufocá-la você tá perdido!
Mulher assim não é do tipo que você coloca na estante pra ficar olhando.
E muito menos é do tipo que você pode ficar cozinhando, nem tenta.
Com ela é ou não é.
E se não for pra ser, quando menos esperar verá ela escapando pelos seus dedos.

Em resumo.
Namore essa mulher que, no final das contas, não é sua. Ela é dela!
Ela é um espírito livre. Ela é completamente dela.
E se ela entrega algumas partes pra você… Que sorte a sua!

TUDO QUE VAI, de Dado Villa-Lobos, Alvin L. e Tony Platão



Hoje é o dia

Eu quase posso tocar o silêncio
A casa vazia
Só as coisas que você não quis
Me fazem companhia
Eu fico à vontade com a sua ausência
Eu já me acostumei a esquecer


Tudo que vai
Deixa o gosto, deixa as fotos
Quanto tempo faz
Deixa os dedos, deixa a memória
Eu nem me lembro mais


Salas e quartos
Somem sem deixar vestígio
Seu rosto em pedaços
Misturado com o que não sobrou
Do que eu sentia
Eu lembro dos filmes que eu nunca vi
Passando sem parar
Em algum lugar.


Tudo que vai
Deixa o gosto, deixa as fotos
Quanto tempo faz
Deixa os dedos, deixa a memória
Eu nem me lembro mais


Fica o gosto, ficam as fotos
Quanto tempo faz
Ficam os dedos, fica a memória
Eu nem me lembro mais


Quanto tempo, eu já nem sei mais o que é meu
Nem quando, nem onde


Tudo que vai
Deixa o gosto, deixam as fotos
Quanto tempo faz
Deixam os dedos, deixa a memória
Eu nem me lembro mais
Fica o gosto, ficam as fotos
Quanto tempo faz
Ficam os dedos, fica a memória
Eu nem me lembro mais


quinta-feira, 26 de novembro de 2015

POEMA EM LINHA RETA. de Fernando Pessoa

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado
[sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

FOTOGRAFIA, tradução da música PHOTOGRAPH, de Ed Sheeran


Amar PODE fazedor

Amar PODE doer as vezes
Mas è um Única Coisa Que Eu sei
QUANDO FICA Difícil
Rápido Você SABE Que PODE Ficar Difícil as vezes
E a Única Coisa Que nsa mantém vivos


O Nós mantemos este amor NUMA FOTOGRAFIA
O Nós fizemos estas Memórias parágrafo NÓS mesmos
Onde NOSSOS Olhos Nunca fecham
NOSSOS Corações Nunca estiveram Partidos
E o ritmo ESTÁ congelado parágrafo sempre


Entao rápido Você pode me guardar nenhum bolso
Seu calça jeans rasgado fazer
Me abraçando Perto Até NOSSOS Olhos se encontrarem
Rápido Você Nunca eStara Sozinha
Espere por volta parágrafo Minha Casa


Amar PODE Curar
Amar PODE remendar SUA alma
Ê ê um Única Coisa Que Eu sei
Eu Juro que FICA Mais Fácil
LEMBRE-SE Disso em Cada Pedaço Seu
Ê ê um Única Coisa Que levamos Conosco when morremos


O Nós mantemos este amor NUMA FOTOGRAFIA
O Nós fizemos estas Memórias parágrafo NÓS mesmos
Onde NOSSOS Olhos Nunca fecham
NOSSOS Corações Nunca estiveram Partidos
E o ritmo ESTÁ congelado parágrafo sempre


Entao rápido Você pode me guardar nenhum bolso
Seu calça jeans rasgado fazer
Me abraçando Perto Até NOSSOS Olhos se encontrarem
Rápido Você Nunca eStara Sozinha
E se Você Me Machucar, tudo bem querida
APENAS como Palavras Sangram
Dentro destas Páginas, me APENAS ABRACE
E eu nunca te deixarei ir
Espere por volta parágrafo Minha Casa


É Você poderia me Colocar
Dentro Deste colar that rápido você usou
QUANDO tinha 16 ano
Perto do Seu Coração Onde Deveria Estar
Mantenha ISSO nenhuma Fundo de SUA alma


E se Você Me Machucar
Mas ESTÁ tudo bem, querida
APENAS como Palavras Sangram
Dentro destas Páginas, me APENAS ABRACE
E eu nunca te deixarei ir


QUANDO eu estiver longe
Me lembrarei de Como Você Me beijava
Embaixo do poste de luz da 6ª rua
Ouvindo rápido você sussurrar Pelo Telefone
Espere por volta parágrafo Minha Casa



sábado, 21 de novembro de 2015

AOS OLHOS DELE, de Florbela Espanca


Não acredito em nada. As minhas crenças
Voaram como voa a pomba mansa;
Pelo azul do ar. E assim fugiram
As minhas doces crenças de criança.

Fiquei então sem fé; e a toda a gente
Eu digo sempre, embora magoada:
Não acredito em Deus e a Virgem Santa
É uma ilusão apenas e mais nada!

Mas avisto os teus olhos, meu amor,
Duma luz suavíssima de dor…
E grito então ao ver esses dois céus:

Eu creio, sim, eu creio na Virgem Santa
Que criou esse brilho que m’encanta!
Eu creio, sim, creio, eu creio em Deus!

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

CONGRESSO INTERNACIONAL DO MEDO, de Carlos Drummond de Andrade


Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

RESPEITE A VOCÊ MAIS DO QUE OS OUTROS, por Clarice Lispector

Não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. (...) Nem sei como lhe explicar minha alma. Mas o que eu queria dizer é que a gente é muito preciosa, e que é somente até um certo ponto que a gente pode desistir de si própria e se dar aos outros e às circunstâncias. (...) Pretendia apenas lhe contar o meu novo carácter, ou falta de carácter. (...) Querida, quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas. Você já viu como um touro castrado se transforma num boi? Assim fiquei eu... em que pese a dura comparação... Para me adaptar ao que era inadaptável, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilhões - cortei em mim a forma que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei também minha força. Espero que você nunca me veja assim resignada, porque é quase repugnante. (...) Uma amiga, um dia desses, encheu-se de coragem, como ela disse, e me perguntou: você era muito diferente, não era? Ela disse que me achava ardente e vibrante, e que quando me encontrou agora se disse: ou essa calma excessiva é uma atitude ou então ela mudou tanto que parece quase irreconhecível. Uma outra pessoa disse que eu me movo com lassidão de mulher de cinquenta anos. (...) o que pode acontecer com uma pessoa que fez pacto com todos, e que se esqueceu de que o nó vital de uma pessoa deve ser respeitado. Ouça: respeite a você mais do que aos outros, respeite suas exigências, respeite mesmo o que é ruim em você - respeite sobretudo o que você imagina que é ruim em você - pelo amor de Deus, não queira fazer de você uma pessoa perfeita - não copie uma pessoa ideal, copie você mesma - é esse o único meio de viver. 

Clarice Lispector, in 'Carta a Tânia [irmã de Clarice] (1947)'

terça-feira, 17 de novembro de 2015

VAIDADE, de Florbela Espanca


                                          A um grande poeta de Portugal

Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade !


Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo ! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade !
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita !


Sonho que sou Alguém cá neste mundo ...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada !


E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho ... E não sou nada! ...


Livro de mágoas (1919)

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

JÁ NÃO ME IMPORTO, de Fernando Pessoa

Já não me importo 
Até com o que amo ou creio amar. 
Sou um navio que chegou a um porto 
E cujo movimento é ali estar. 

Nada me resta 
Do que quis ou achei. 
Cheguei da festa 
Como fui para lá ou ainda irei 

Indiferente 
A quem sou ou suponho que mal sou, 

Fito a gente 
Que me rodeia e sempre rodeou,
 
Com um olhar 
Que, sem o poder ver, 
Sei que é sem ar 
De olhar a valer. 

E só me não cansa 
O que a brisa me traz 
De súbita mudança 
No que nada me faz.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

O LUAR, de Mário Quintana


O luar,
é a luz do Sol que está sonhando



O tempo não pára!
A saudade é que faz as coisas pararem no tempo...



...os verdadeiros versos não são para embalar, 
mas para abalar...



A grande tristeza dos rios é não poderem levar a tua imagem...

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

TU ERAS TAMBÉM UMA PEQUENA FOLHA, de Pablo Neruda

Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

O JEITO É CONTINUAR, extraído da coluna VIA MACHO

“A gente sempre destrói aquilo que mais ama,/em campo aberto ou numa emboscada;/uns com a leveza do carinho,/outros com a dureza da palavra;/os covardes destroem com um beijo,/os valentes com uma espada.” Estes versos são um trecho da Balada do Cárcere, de Oscar Wilde, e me fazem pensar. Talvez não exista mesmo uma relação totalmente saudável, talvez a felicidade seja só mesmo um espasmo isolado na rotina…

Desculpe meu ceticismo, senhoras e senhores, mas esta semana não serei o sensível macho anjo do amor, não tenho motivos para tentar encarnar o papel de portador da eterna esperança. De um jeito ou de outro, Wilde estava certo. A gente sempre destrói aquilo que mais ama. Não importa o que a gente faça, nenhuma relação acaba bem. Vítimas do tempo, reféns de nós mesmos, filhos de uma insensibilidade anestesiante, um egoísmo cheio de sorrisos, a humanidade ainda não descobriu uma maneira de fazer todo mundo feliz.

Atenção demais e atenção de menos falharam como soluções. Trate alguém bem demais e você estará escrevendo seu próprio fim. Estamos fadados a viver renascendo das cinzas, feito a lenda da Fênix, que constrói seu ninho com folhas secas onde o sol bate mais forte, e lá espera seu leito se incendiar. A lenda diz que a Fênix renasce, mas nossos peitos estão mais para capim colonião, renitentes e fracos.

Amigos, amantes, quem mais puder chegar perto…sempre sai um ferido. Vence este jogo quem tem o coração teimoso ou aquele com uma memória rasa feito os olhos cheios d’ água de uma despedida trágica. Começar de novo é uma arte. Não endurecer o peito é um desafio. Cansamos de entregar o peito às pessoas erradas. Cansamos de apanhar tentando sermos amados. Mendigos de um mundo girando em outros umbigos. Todos já nos satisfizemos com menos, todos já cometemos erros pensados, por não querermos estar sós. Ainda bem que nossos relacionamentos acabados não são marcas nas paredes de nossas celas diárias. Machucamos e somos massacrados. Só não podemos desistir de viver.

Belo discurso esse que o povo empunha, que deve se manter o peito aberto. Linda essa falsa vontade das mulheres quererem um romance de verdade. Nós, machos, somos sempre os culpados. Amor traz responsabilidade, e isso ninguém quer. O livro preferido de qualquer candidata a miss, O Pequeno Príncipe, nos ensina que somos responsáveis pelo que cativamos. Ninguém quer mais ser responsável. Ninguém precisava levar isso tão a sério a ponto de criar essa legião de solitários. Onde foi parar a chance de sermos mesmo conquistados?

Todos temos fantasmas, todos temos alguém cravado no peito, uma lembrança que seja. Todos já esperamos um telefonema que nunca veio, um e-mail que nunca foi escrito, uma carta que nunca foi mandada. Quem não se encaixa nisso, sim, que me atire a primeira pedra. Temos que escolher o que esquecer nesse jogo. As pessoas que não soubemos amar de volta, os amores que construímos sozinhos com areia. Todos dizem querer alguém, mas quem realmente quer uma relação de verdade?

Milhões de drinques serão virados pensando silenciosamente em alguém que não me soube. Encharquei meu coração seco milhares de vezes. Nunca foi solução. O melhor amigo que não soube ser o melhor de volta. A paixão que nunca nos correspondeu. O amor que expirou no mesmo dia que o leite de caixinha que azeda na sua geladeira. Somos mestres em abraçar esse ceticismo, em lutarmos para não acreditar mais em promessas – mais do que nunca descartáveis. A solução parece simples.

Todo macho tem seu período de celibato, de renúncia ao sexo oposto. Chega de montanha-russa. As mulheres são confusas demais…O coração masculino entra em menos brigas porque sabe que apanha fácil. Será que é seguro abrir o peito aos canhões (não no sentido figurado!!!)? As mulheres têm esse talento de transformar cachorrões (canalhas) em cachorrinhos encoleirados, bobos com sua transitória diversão. Talvez sirvamos mesmo pra alguma coisa. Mas a volta de cachorrinho atropelado para cachorrão distante é mais rápida ainda…

Somos todos só capítulos, quando muito, na vida de alguém. Quem acha que pode ser parágrafo que se cuide para não ser só uma rima. A página vira você querendo ou não. E nem sempre seu nome aparece na próxima. O ceticismo masculino, nosso suposto medo de nos envolver faz fama girando o mundo, fruto da inconstância da mulher. Ela ora quer, ora não quer ser parte da nossa vida. Escolhemos mulheres erradas, devemos admitir. Mulheres também escolhem os homens errados, e os fígados dos machos de verdade é que acabam pagando a conta.

Já construí e derrubei milhões de muros em torno do meu peito. Já estabeleci distância regulamentar para que ninguém chegasse muito perto, mas de tempos em tempos aparece uma cretina que seduz os guardas da razão, que tira minha atenção, me tira o foco e passa por cima do meu coração. Admito que umas até me tratam bem por um tempo…

Corações quebrados nunca mais batem no mesmo tom. Demora para um macho aprender a andar com sua dor. A gente acaba entrando nesse jogo, parecendo ser quem manda. Relações descartáveis recheiam nossos bolsos vazios de amor. Não lembro o nome de quinhentas mulheres, mas não consigo esquecer as pintas e o sorriso de uma. Melhor mesmo vestir nossa armadura de papel, melhor mesmo é levantar a cabeça, deixar o que sobrou do peito no freezer. Ninguém fica na defensiva para fazer tipo.

Macho que é macho só gera conteúdo para revistas femininas, no papel de sujeito que não quer se envolver, porque a intuição feminina parou de nos sentir de verdade há séculos.

Sempre existirão os lobos cínicos de plantão prontos para fazer um estrago com toda e qualquer mulher que cruzar seu caminho. Mas nem toda chapeuzinho vermelho precisava sempre ser uma caçadora armada defensivamente até os dentes.

Agora, me dêem licença porque em algum lugar desse planetinha errado tem alguém querendo brincar com o novo resto do meu coração…e, por um tempo, eu vou adorar…

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

ACEITARÁS O AMOR COMO EU O ENCARO?..., de Mário de Andrade

Aceitarás o amor como eu o encaro ?...
...Azul bem leve, um nimbo, suavemente
Guarda-te a imagem, como um anteparo
Contra estes móveis de banal presente.

Tudo o que há de melhor e de mais raro
Vive em teu corpo nu de adolescente,
A perna assim jogada e o braço, o claro
Olhar preso no meu, perdidamente.

Não exijas mais nada.
Não desejo Também mais nada,
só te olhar, enquanto A realidade é simples,
e isto apenas.

Que grandeza... a evasão total do pejo
Que nasce das imperfeições.
O encanto que nasce das adorações serenas.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

O IMPOSSÍVEL CARINHO, de Manuel Bandeira

Escuta, eu não quero contar-te o meu desejo
Quero apenas contar-te a minha ternura
Ah se em troca de tanta felicidade que me dás
Eu te pudesse repor
- Eu soubesse repor -
No coração despedaçado
As mais puras alegrias de tua infância!


quarta-feira, 4 de novembro de 2015

PRANTO PARA COMOVER JONATHAN, de Adélia Prado

Os diamantes são indestrutíveis?
Mais é meu amor.
O mar é imenso?
Meu amor é maior,
mais belo sem ornamentos
do que um campo de flores.
Mais triste do que a morte,
mais desesperançado
do que a onda batendo no rochedo,
mais tenaz que o rochedo.
Ama e nem sabe mais o que ama.


terça-feira, 3 de novembro de 2015

OS POEMAS, de Mário Quintana

Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam voo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti…


(Publicado originalmente no livro Esconderijos do Tempo, retirado de Poesia Completa – Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005, p. 469)

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

NO CORPO, Ferreira Gullar

De que vale tentar reconstruir com palavras
O que o verão levou
Entre nuvens e risos
Junto com o jornal velho pelos ares

O sonho na boca, o incêndio na cama,
o apelo da noite
Agora são apenas esta
contração (este clarão)
do maxilar dentro do rosto.

A poesia é o presente.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

NÃO HÁ VAGAS, de Ferreira Gullar

O preço do feijão
não cabe no poema. 
O preço do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras

- porque o poema, senhores,
está fechado:
“não há vagas”

Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

O poema, senhores,
não fede
nem cheira

terça-feira, 27 de outubro de 2015

COR-RESPONDÊNCIA, de Elisa Lucinda


Remeta-me os dedos
em vez de cartas de amor
que nunca escreves
que nunca recebo.
Passeiam em mim estas tardes
que parecem repetir
o amor bem feito
que você tinha mania de fazer comigo.
Não sei amigo
se era o seu jeito
ou de propósito
mas era bom, sempre bom
e assanhava as tardes.
Refaça o verso
que mantinha sempre tesa
a minha rima
firme
confirme
o ardor dessas jorradas
de versos que nos bolinaram os dois
a dois.
Pense em mim
e me visite no correio
de pombos onde a gente se confunde
Repito:
Se meta na minha vida
outra vez meta
Remeta.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

DAS UTOPIAS, de Mário Quintana

Se as coisas são inatingíveis… ora!
Não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!

(Quintana de Bolso – Coleção L&PM Pocket)

sábado, 24 de outubro de 2015

INSCRIÇÃO NA AREIA, de Cecília Meireles

O meu amor não tem
importância nenhuma.
Não tem o peso nem
de uma rosa de espuma!

Desfolha-se por quem?
Para quem se perfuma?

O meu amor não tem
importância nenhuma.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

ARTE-FINAL, de Affonso Romano de Sant’Anna


Não basta um grande amor
para fazer poemas.
E o amor dos artistas, não se enganem,
não é mais belo
que o amor da gente.
O grande amante é aquele que silente
se aplica a escrever com o corpo
o que seu corpo deseja e sente.
Uma coisa é a letra,
e outra o ato,
quem toma uma por outra
confunde e mente.

O BLUEBIRD, de Charles Bukowski


em meu coração tem um pássaro
que quer sair
mas eu sou mais forte que ele,
eu falo, fica aí dentro, eu não vou
deixar ninguém
te ver.

em meu coração tem um pássaro
que quer sair
mas eu taco uísque nele e respiro
fumaça de cigarro
e as putas e os barmen
e as caixas do mercado
nunca sabem que
ele está
aqui dentro.

em meu coração tem um pássaro
que quer sair
mas eu sou mais forte que ele,
eu falo,
fica na tua, você quer me por
em apuros?

em meu coração tem um pássaro
que quer sair
mas eu sou mais esperto, só deixo ele sair
de noite às vezes
quando todos estão dormindo.
eu falo, sei que você está aí,
então não fique
triste.

daí o ponho de volta,
mas ele ainda canta um pouco
aqui dentro, eu não o deixei morrer
totalmente
e a gente dorme junto desse
jeito
com nosso pacto secreto
e é bem capaz de
fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, você
chora?

Charles Bukowski, poema “O Bluebird”, do livro “Essa loucura roubada que não desejo a ninguem a não ser a mim mesmo amém” (7 Letras, pg. 155)

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

A ALVORADA DO AMOR, de Olavo Bilac

Um horror, grande e mudo, um silêncio profundo
No dia do Pecado amortalhava o mundo.
E Adão, vendo fechar-se a porta do Éden, vendo
Que Eva olhava o deserto e hesitava tremendo,
Disse:
Chega-te a mim! entra no meu amor,
E e à minha carne entrega a tua carne em flor!
Preme contra o meu peito o teu seio agitado,
E aprende a amar o Amor, renovando o pecado!
Abençoo o teu crime, acolho o teu desgosto,
Bebo-te, de uma em uma, as lágrimas do rosto!

Vê tudo nos repele! a toda a criação
Sacode o mesmo horror e a mesma indignação…
A cólera de Deus torce as árvores, cresta
Como um tufão de fogo o seio da floresta,
Abre a terra em vulcões, encrespa a água dos rios;
As estrelas estão cheias de calefrios;
Ruge soturno o mar; turva-se hediondo o céu…

Vamos! que importa Deus? Desata, como um véu,
Sobre a tua nudez a cabeleira! Vamos!
Arda em chamas o chão; rasguem-te a pele os ramos;
Morda-te o corpo o sol; injuriem-te os ninhos;
Surjam feras a uivar de todos os caminhos;
E, vendo-te a sangrar das urzes através,
Se amaranhem no chão as serpes aos teus pés…
Que importa? o Amor, botão apenas entreaberto,
Ilumina o degrêdo e perfuma o deserto!
Amo-te! sou feliz! porque, do Éden perdido,
Levo tudo, levando o teu corpo querido!

Pode, em redor de ti, tudo se aniquilar:
Tudo renascerá cantando ao teu olhar,
Tudo, mares e céus, árvores e montanhas,
Porque a vida perpétua arde em tuas entranhas!
Rosas te brotarão da bôca, se cantares!
Rios te correrão dos olhos, se chorares!
E se, em torno ao teu corpo encantador e nú,
Tudo morrer, que importa? A natureza és tu,
Agora que és mulher, agora que pecaste!
Ah! bendito o momento em que me revelaste
O amor com teu pecado, e a vida com o teu crime!
Porque, livre de Deus, redimido e sublime,
Homem fico na terra, luz dos olhos teus,
Terra, melhor que o Céu! homem maior que Deus!

terça-feira, 20 de outubro de 2015

SIM, ALGUÉM VAI TE AMAR, por Pedro Araújo

Sim, alguém vai te amar do jeito que você é. Vai amar seus defeitos, seus medos, suas inseguranças, seus anseios e seus desejos mais íntimos. Vai te esperar na porta, se preocupar se você atrasar ou mesmo mandar aquela mensagem discreta perguntando onde você está.

Esse alguém vai acordar ao seu lado numa manhã clara de domingo ou numa segunda de céu acinzentado, vai te abraçar com força e dizer que vai ficar tudo bem, mesmo que nada esteja, que vai puxar a sua orelha na hora certa, te dizer que você está errada e te fazer aquelas cócegas que você tanto odeia só para te ver rindo.

Alguém que vai comprar uma escova de dente para colocar ao lado da sua, o shampoo adequado ao lado do seu, que ganhará um lado da cama e quem sabe o controle da televisão da sala, que vai te beijar docemente e te amar loucamente, vai fazer amor um dia e querer trepar no outro, vai te tratar bem, muito bem, vai embarcar nas suas loucuras e ficar louca também, vai rir das piadas sem graça e te fazer uma massagem quando você menos esperar.

Esse alguém não vai ligar para o seu corpo, para as gordurinhas aparentes ou para as espinhas do seu rosto, essa pessoa vai te querer do jeitinho que você acorda, sem maquiagens ou muitas apresentações e vai te amar, te amar, te amar. Vai te acompanhar numa conversa por longas horas, dias, meses, anos, décadas e mesmo quando ela estiver longe, você a sentirá bem perto. Porque amar é assim, sem muita complicação, sem muita cobrança e para dar certo, basta estar perto!

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

RETRATO, de Cecília Meireles

Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?

(Obra poética, Volume 4, Biblioteca luso-brasileira: Série brasileira. Companhia J. Aguilar Editora, 1958, p. 10)

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

CRÔNICA ENGRAÇADA, por Luís Fernando Veríssimo



Minha mulher e eu temos o segredo para fazer um casamento durar:

Duas vezes por semana, vamos a um ótimo restaurante, com uma comida gostosa, uma boa bebida e um bom companheirismo. Ela vai às terças-feiras e eu, às quintas.

Nós também dormimos em camas separadas: a dela é em Fortaleza e a minha, em SP.

Eu levo minha mulher a todos os lugares, mas ela sempre acha o caminho de volta.

Perguntei a ela onde ela gostaria de ir no nosso aniversário de casamento, “em algum lugar que eu não tenha ido há muito tempo!” ela disse. Então, sugeri a cozinha.

Nós sempre andamos de mãos dadas…Se eu soltar, ela vai às compras!

Ela tem um liquidificador, uma torradeira e uma máquina de fazer pão, tudo elétrico. Então, ela disse: “nós temos muitos aparelhos, mas não temos lugar pra sentar”. Daí, comprei pra ela uma cadeira elétrica.

Lembrem-se: o casamento é a causa número 1 para o divórcio. Estatisticamente, 100 % dos divórcios começam com o casamento.

Eu me casei com a “senhora certa”. Só não sabia que o primeiro nome dela era “sempre”.

Já faz 18 meses que não falo com minha esposa. É que não gosto de interrompê-la.

Mas, tenho que admitir: a nossa última briga foi culpa minha.

Ela perguntou: “O que tem na TV?”

E eu disse: “Poeira”.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

ANTES DO NOME, de Adélia Prado

Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,
os sítios escuros onde nasce o “de”, o “aliás”,
o “o”, o “porém” e o “que”, esta incompreensível
muleta que me apóia.
Quem entender a linguagem entende Deus
cujo Filho é Verbo. Morre quem entender.
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,
foi inventada para ser calada.
Em momentos de graça, infrequentíssimos,
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

GOSTO QUANDO TE CALAS, de Pablo Neruda

Gosto quando te calas porque estás como ausente,
e me ouves de longe, minha voz não te toca.
Parece que os olhos tivessem de ti voado
e parece que um beijo te fechara a boca.

Como todas as coisas estão cheias da minha alma
emerge das coisas, cheia da minha alma.
Borboleta de sonho, pareces com minha alma,
e te pareces com a palavra melancolia.

Gosto de ti quando calas e estás como distante.
E estás como que te queixando, borboleta em arrulho.
E me ouves de longe, e a minha voz não te alcança:
Deixa-me que me cale com o silêncio teu.

Deixa-me que te fale também com o teu silêncio
claro como uma lâmpada, simples como um anel.
És como a noite, calada e constelada.
Teu silêncio é de estrela, tão longínquo e singelo.

Gosto de ti quando calas porque estás como ausente.
Distante e dolorosa como se tivesses morrido.
Uma palavra então, um sorriso bastam.
E eu estou alegre, alegre de que não seja verdade.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

O SOBREVIVENTE, de Carlos Drummond de Andrade

Impossível compor um poema a essa altura da evolução da humanidade.

Impossível escrever um poema – uma linha que seja – de verdadeira poesia.
O último trovador morreu em 1914.
Tinha um nome de que ninguém se lembra mais.

Há máquinas terrivelmente complicadas para as necessidades mais simples.
Se quer fumar um charuto aperte um botão.
Paletós abotoam-se por eletricidade.
Amor se faz pelo sem-fio.
Não precisa estômago para digestão.

Um sábio declarou a O Jornal que ainda falta
muito para atingirmos um nível razoável de
cultura. Mas até lá, felizmente, estarei morto.

Os homens não melhoram
e matam-se como percevejos.
Os percevejos heróicos renascem.
Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado.
E se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo dilúvio.

(Desconfio que escrevi um poema.)

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

EU QUERIA TRAZER-TE UNS VERSOS MUITO LINDOS, de Mário Quintana

Eu queria trazer-te uns versos muito lindos
colhidos no mais íntimo de mim…
Suas palavras
seriam as mais simples do mundo,
porém não sei que luz as iluminaria
que terias de fechar teus olhos para as ouvir…
Sim! Uma luz que viria de dentro delas,
como essa que acende inesperadas cores
nas lanternas chinesas de papel!
Trago-te palavras, apenas… e que estão escritas
do lado de fora do papel… Não sei, eu nunca soube o que dizer-te
e este poema vai morrendo, ardente e puro, ao vento
da poesia…
como
uma pobre lanterna que incendiou!

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

IRONIA DE LÁGRIMAS, de Cruz e Sousa

Junto da morte é que floresce a vida!
Andamos rindo junto a sepultura.
A boca aberta, escancarada, escura
Da cova é como flor apodrecida.

A Morte lembra a estranha Margarida
Do nosso corpo, Fausto sem ventura…
Ela anda em torno a toda criatura
Numa dança macabra indefinida.

Vem revestida em suas negras sedas
E a marteladas lúgubres e tredas
Das Ilusões o eterno esquife prega.

E adeus caminhos vãos mundos risonhos!
Lá vem a loba que devora os sonhos,
Faminta, absconsa, imponderada cega!

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

EU ESCREVI UM POEMA TRISTE, de Mário Quintana

Eu escrevi um poema triste
E belo, apenas da sua tristeza.
Não vem de ti essa tristeza
Mas das mudanças do Tempo,
Que ora nos traz esperanças
Ora nos dá incerteza…
Nem importa, ao velho Tempo,
Que sejas fiel ou infiel…
Eu fico, junto à correnteza,
Olhando as horas tão breves…
E das cartas que me escreves
Faço barcos de papel!